Somos ilha

São Petersburgo, Rússia, 2015.

De vez em quando tenho a sensação de que sou bem diferente das pessoas ao meu redor. Prefiro não perguntar o que pensam de mim. Assim como prefiro não comentar o que acho delas. Cada um no seu quadrado. Somos ilha, isolada no oceano profundo. Não me leve muito a sério, são apenas devaneios em uma longa viagem.

O trajeto de trem de Helsinque até São Petersburgo foi confortável. A maior expectativa era pela imigração, realizada a bordo. Foi tudo bem tranquilo. Brasileiros não precisam de visto para entrar na Rússia.

O desafio seguinte era comprar a passagem de metrô. Poucos russos falam inglês, inclusive os funcionários da estação. As placas estão em alfabeto cirílico. Já sabíamos disso. Sabíamos também que o tíquete de metrô se parece com uma moeda metálica. Token. A cada viagem, um token.

Temos o hábito de sacar dinheiro local somente no país de destino. Logo, na chegada, não tínhamos rublos. Fizemos uma rápida avaliação das máquinas de autoatendimento da estação em busca de uma palavra conhecida. Ou de um logotipo. Visa ou MasterCard. Sim, lá estava ela, porém, incomunicável conosco. Inserir ou não o cartão nesta máquina? Uma decisão tem que ser tomada, já forma fila atrás de nós. Cartão inserido. Como mágica, instruções em inglês são exibidas e rapidamente os rublos estão em nossas mãos. Agora confiantes, usamos outra máquina para trocar rublos pelos tokens.

O verão em São Petersburgo tem dias longos, quentes, ensolarados. A cidade vibra em máxima rotação. As calçadas são largas porém insuficientes para a multidão em movimento. Passos acelerados. Por que tão rápidos? Talvez estejam excitados pelo fim do congelante inverno que passou. Pessoas fazem fila. Pessoas andam em fila. Pessoas param em fila. Sem parar. Como um grande rio caudaloso.

Saímos da estação de metrô a procura do nosso hotel. Com nossa mala de rodinhas. Para à esquerda ou para à direita? Entramos no turbilhão procurando algo que nos forneça uma referência. O GPS do celular teima em nos confundir. Tentamos acompanhar o ritmo das pessoas. A mala atrapalha quem caminha no sentido contrário. Pessoas nos ultrapassam. Juntinhos, paramos para respirar, alheios ao movimento. Agora somos ilha em um rio agitado.

Fotógrafos adoram dias longos. Com planejamento evitamos os horários de maior calor e luz dura. Encontramos a Igreja do Sangue Derramado (ou Igreja da Ressurreição do Salvador sobre o Sangue Derramado). Assim como milhares de turistas que a visitam diariamente. Como sempre, nosso desafio fotográfico é fugir dos clichês. Ir além da imagem óbvia de cartão postal. A Igreja é linda, inspiradora. Perto dela nada nos incomoda. Nem as multidões. Uma sublime sensação de prazer fotográfico nos envolve. Ela é a ilha que nos salva da cidade agitada.

Somos ilha.

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