Jerusalém: você ficou maluco?

Jerusalém, Israel, 2017.

Planejei esta viagem meses atrás. Eu pensava em um roteiro de final de ano no Mediterrâneo. Onde o inverno não é tão rigoroso como em latitudes maiores.

O final de ano é a melhor época para minhas viagens. É quando tenho menos trabalho. Consigo fazer roteiros mais longos. Aproveito a baixa temporada para gastar menos e escapar das multidões.   

Claro que há pontos negativos quando escolho esta época para viajar. No hemisfério norte os dias são mais curtos. E a família reclama da minha ausência no Natal. Mas sei que eles me entendem pois estou fazendo o que gosto.

Decidi começar a viagem por Israel. Em Jerusalém.

Como é fascinante a história desta cidade. Como sua influência foi decisiva para moldar o mundo como o conhecemos atualmente. Terra sagrada para várias religiões.

Jerusalém foi conquistada, destruída e reconstruída inúmeras vezes ao longo da história. Até hoje é motivo de discórdia. Poucos lugares do mundo podem rivalizar sua importância. Minha vontade era comprar a passagem e viajar imediatamente.

Mas, voltando ao planejamento. Recebi varios comentários: não tinha um lugar mais tranquilo para você ir?

Eu também estava preocupado. Somos bombardeados diariamente por notícias ruins vindas deste lado do mundo. Pouco se fala das coisas boas.

Pesquisei, procurei avaliar os riscos. E, acima de tudo, tentei me proteger do preconceito que existe por esta região tão polêmica.

A decisão que me restava, para aplacar minha curiosidade e proporcionar novos desafios, era enfrentar a situação e tirar minhas próprias conclusões.

Passei a acompanhar o noticiário com mais atenção. Tudo parecia tranquilo até a decisão de mudança da embaixada americana para Jerusalém tomada pelo Trump. O momento desta notícia não podia ser pior. Poucos dias antes da minha partida. As manifestações contra a mudança da embaixada se espalhavam e minha preocupação aumentava,

No entanto, Jerusalém não estava sendo noticiada como área de conflito. E eu não planejava visitar os territórios palestinos. Decidi arriscar.

Fui.

Israel é um país moderno, com ótima infra-estrutura. É fácil conseguir transporte, hospedagem e alimentação. Não é um país barato: de forma empírica, calculo que os preços de serviços ligados ao turismo sejam 50% mais caros do que no Brasil. 

Pela primeira vez em minhas viagens aéreas tive uma mala extraviada. Ela foi encontrada e devolvida em menos de 24 horas. Bom sinal.

Grande parte das atrações de Jerusalém está no centro histórico. Rodeado por uma imensa muralha. E dividido em quatro bairros: muçulmano, judeu, cristão e armênio. Você  caminha livremente entre eles. É uma verdadeira viagem no tempo. 

Percebo nas ruas, logo no início da viagem, a forte presença militar de Israel. Há soldados armados e máquinas de raio X espalhados pelos pontos de maior concentração de pessoas. Depois de um tempo me acostumei com estes cuidados de segurança. Não afetaram, de forma alguma, minha liberdade de ir e vir.

Meu último dia em Jerusalém proporcionou as experiências mais ricas. Impossível descrever somente por meio de imagens. Difícil explicar em palavras. Tentarei, mesmo assim, sugerir um caminho para que você me entenda.

Primeiro, esteja consciente da importância cultural e religiosa de Jerusalém.

Segundo, tente ver as diferenças como algo que você pode aceitar e respeitar. Sem preconceitos.

Terceiro, visite Jerusalém numa sexta feira. Comece o dia bem cedo, antes das multidões, no silêncio da Igreja do Santo Sepulcro. Pouco antes da hora do almoço siga até o Portão de Damasco e observe muçulmanos a caminho da mesquita para uma de suas rezas diárias. E, pouco antes do por do sol, vá ao Muro Ocidental para acompanhar o início do shabbat.

Saio de Jerusalém um pouco diferente do que cheguei. Fico com a certeza de que posso me tornar uma pessoa melhor. Que aceita e respeita as diferenças. E serei ainda melhor se conseguir provocar alguma reflexão nas pessoas que me rodeiam.

Valeu a pena correr riscos. Mesmo sendo chamado de maluco.

Feliz 2018 a todos!

PS.: no vôo de ida assisti, pela segunda vez, A Vida Secreta de Walter Mitty. Para mim a cena mais impactante, sem revelar detalhes, mostra o momento em que “cai a ficha” do Walter e ele corre desesperadamente atrás do helicóptero. A trilha sonora desta cena é Space Oddity por David Bowie. Tem tudo a ver com esta postagem.