Fotomotivação tem cura?

Kotor, Montenegro, 2016.

Uma definição concisa de motivação: ato ou efeito de motivar. Não sei se a palavra fotomotivação existe, mas é fácil imaginar um significado adequado a ela. Numa época em que quase todos possuem uma câmera fotográfica em seu celular, a fotomotivação pode atingir grande parte da população. Em menor ou maior gravidade. Há relatos de pessoas que sofrem de fotomotivação em casa e no trabalho. Podemos até considerar o risco de uma epidemia de fotomotivação pois ela é altamente contagiosa. Ou seria contagiante? Há uma perigosa variação conhecida como self-fotomotivação, que pode ser agravada pelo uso intensivo de compartilhamentos sociais e pela síndrome de likes.

Confesso, sofro de fotomotivação. Minhas crises são diárias. Algumas acontecem no trabalho. Outras são provocadas por algum blog de viagem irresponsável, pela leitura de um dos perigosos guias Lonely Planet ou, o que é pior, por uma foto de viagem na timeline de algum amigo. Os primeiros sintomas se manifestam pela pesquisa insana por passagem aérea e hospedagem. No meu caso, além de frequentar sites maliciosos com informações pluviométricas, gasto horas no Google Maps montando quebra-cabeças. Acha isso um exagero? Basta imaginar o critério de encaixe do quebra-cabeças como a proximidade geográfica entre pontos de interesse. Se eu vou para Milão, por que não aproveitar e esticar até Veneza? Encaixou! Esses primeiros sintomas reduzem a produtividade no trabalho e são agravados pela febre do planejamento. Felizmente há limites para a fotomotivação, em geral, associados a uma planilha de custos. 

Em 2015 acompanhei pelo Facebook a incrível viagem da Sueli e do Marcio pelo Leste Europeu. A região já estava na minha lista dos 10 próximos lugares para conhecer. Talvez em 5º ou 6º lugar. Até que vi as fotos deles na muralha de Kotor e… Foi paixão à primeira vista! Imediatamente senti na veia o fluxo da fotomotivação tomando conta de mim. A crise começou. Preciso contar essa história para eles, são culpados involuntários desta crise.

Provavelmente eles não sabem, ou não se lembram, que provocaram crises semelhantes em mim há mais de 20 anos. Eles desenhavam mapas de trilhas de lugares incríveis. À mão. Com indicações preciosas que me permitiram explorar Ibitipoca, Serra do Cipó e pico da Bandeira. Era o único recurso de navegação disponível, na época, para uma aventura independente nestes magníficos recantos da natureza. Na Serra do Cipó o alerta dizia: NÃO ULTRAPASSE! Mas a curiosidade nos levou adiante até que tiros foram ouvidos. Voltamos correndo, sem olhar para trás. 

Em 2016 viajamos pelo Leste Europeu usando o quebra-cabeças que havíamos montado. Começamos pela Croácia e cruzamos a região até a Polônia. Mas foi na espetacular muralha de Kotor que descobrimos que a fotomotivação provoca efeitos colaterais:

  • Redução acentuada da lei da gravidade. Quanto mais bonito, menor o esforço para subir. Newton desconhecia Kotor, não tinha como saber. Nos primeiros degraus da muralha você quer desistir. Mas após 1.350 degraus, sempre acompanhado pelo visual magnífico, você se sente flutuando. Parece até propaganda da Red Bull.
  • Liberação acelerada de endorfina. Não se preocupe com as aulas perdidas de Crossfit. Ao subir, você produzirá endorfina em grande quantidade. E emagrecerá. Ou seu dinheiro de volta.
  • Surdez seletiva. Ao subir, quando você pergunta para alguém que está descendo “falta muito?” você recebe a inevitável resposta, acompanhada por um sorrisinho irônico, “nem na metade”. Esta resposta é automaticamente rejeitada pelo aparelho auditivo e se transforma em motivo para frases como “que lugar lindo!”.
  • Adestramento involuntário. Na topo da muralha a sensação de vitória é inebriante. Como uma entidade independente, fora de controle, a fotomotivação induz em você comparações exageradas com Ayrton Senna ou Amyr Klink. Isso se chama reforço positivo. Como um adestrador de cães, a fotomotivação está te preparando para a próxima aventura. Ou próxima crise.

Ah… Felizmente ainda não foi descoberta a cura da fotomotivação!

PS: a fotomotivação no trabalho não é um problema se te deixa feliz e seu chefe não reclama. Os fotógrafos amadores podem se submeter a doses crescentes de fotomotivação. Sem contraindicação. Os verdadeiros fotógrafos profissionais experimentam a fotomotivação 24 horas por dia, 365 dias por ano. Sem enganação.

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